Divididas entre dois “amores” “Casamento” foi com o Futebol

Texto: Marcelo Neves

Foto: Manuel Azevedo


MÓNICA MENDES

Além do Futebol, a Mónica praticava também o Karaté. Como conseguia conciliar as duas?

MM - Na minha opinião há sempre tempo pra tudo. Quando gostamos do que fazemos é uma mera questão de entrega e dedicação e conseguimos sempre conciliar e arranjar o tempo certo para fazer o que gostamos.

E agora deixou o Karaté para se dedicar em pleno ao futebol?

MM – Não completamente. Tive de abandonar a parte competitiva, para mais depois de ter ido para os Estados Unidos, mas sempre que venho a Portugal, nas férias, faço por lazer.

Já antes praticava o Karaté por lazer ou levava a sério?

MM – A nível associativo participei nos Campeonatos do Mundo, a nível de estilo – Shotokan – participei no Campeonato Europeu e depois a nível federativo participei no Campeonato Regional e Nacional.

Duas modalidades tão distintas… o que conseguiu retirar dessa diversidade?

MM –  O Karaté ensina-nos a ter muita paciência,  a sermos calmos,  a actuar com máximo fair-play. Eu concilio ambas modalidades mas não é pelo facto de praticar karaté que vou entrar mais aguerrida ou com maior agressividade, pelo contrário, é à base de respeito, da dedicação e determinação, que são valores comuns quer ao karaté quer ao futebol e que tento aplicar ao máximo.

O karaté pode ser um bom complemento ao futebol em termos disciplina mental, é isso?

MM – Sim, em termos mentais, psicológicos, ensina-nos a nunca desistir, uma força interior enorme mais nesse aspecto. No jogo mental é uma grande vantagem.

Em qual se iniciou primeiro?

MM – Em ambos! Meu pai é treinador de futebol e profissional de karaté, por isso mal nasci já estava a ser estimulada. É genético…

Agora é para levar a sério o Futebol de 11, certo?

MM – Neste momento estou a residir nos Estados Unidos da América, onde estou a concluir o Curso de Educação Física, [NOTA: estuda e joga na Universidade do Texas Brownsville (UTB)] assim que isso aconteça pretendo profissionalizar-me no futebol. É nesse objectivo que irei focalizar-me futuramente, sempre de maneira a dar o meu melhor para poder evoluir individualmente e ajudar a minha equipa onde quer que eu esteja, bem como ajudar a selecção nacional a crescer cada vez mais.

A nível universitário, o desporto nos EUA é já assumido de forma extremamente a séria…

MM – Lá, o nível universitário está muito próximo do profissional em matéria das condições de trabalho que nos oferecem, em matéria de patrocínios, de organização, entre outras. Portanto temos as bases para continuar a evoluir e chegar mais longe e é nisso que eu tento aproveitar ao máximo para continuar a crescer. Graças ao futebol consegui uma Bolsa de Estudo completa, mas também temos de dedicar-nos aos estudos, eu nunca descurei a parte académica, Acho que os estudos são fundamentais, cada vez mais temos de assumir as dimensões de estudantes e jogadoras, algo que consigo conciliar ao máximo e é nessa mentalidade que vou terminar o Curso, já em Maio deste ano. 

A perspectivar o regresso a Portugal ou a permanência nos EUA?

MM – Ainda não sei. Não costumo pensar muito no futuro, foco-me essencialmente no presente e o meu presente é aqui, amanhã poderá ser noutro lugar… Vivo o meu presente e dou sempre o melhor onde estou.

  


CAROLINA MENDES

A Carolina também praticava outra modalidade, o hóquei em patins, mas o futebol de 11 acabou por assumir a prioridade. Nunca mais praticou hóquei?

CM - Já há cerca de três ou quatro anos que decidi optar pelo futebol e tive de deixar o hóquei completamente de lado. Fui para fora do país, na base do meu primeiro contrato semiprofissional no futebol e fiz esta opção, porque me ofereceram as melhores condições.

O hóquei foi a sua primeira paixão?

CM – Comecei a jogar hóquei aos 5 anos, na equipa do Clube Desportivo Autónomo Externato São Filipe, de Estremoz. O meu desporto de eleição era o hóquei e o futebol veio muito mas tarde, eu já tinha 16 anos quando comecei e foi sobretudo por brincadeira. Foi numa equipa de Portalegre, ia jogar aos fins-de-semana e nem sequer treinava à semana, pois nunca pensei sequer em seguir mais a sério essa carreira, nem sequer chegar a profissional estar onde estou neste momento. Eu também estava a estudar na altura, a tirar o curso de Fisioterapia, em Lisboa, e foi mais difícil conciliar os estudos com o hóquei, tendo em conta as distâncias. Foi então que comecei a dedicar-me mais ao futebol.

Já era difícil conciliar ambas?

CM – Tinha 16 ou 17 anos e já tinha sido convocada para os trabalhos da selecção feminina de hóquei, e curiosamente até houve uma altura em que os estágios da selecção A de futebol coincidiram com os do hóquei e foi possível conciliar mas com alguma dificuldade.

Em termos físicos, qual delas é mais exigente?

CM – São duas modalidades bem diferentes. Creio que o hóquei é muito parecido ao futsal, no sentido em que é muito intenso, o espaço é reduzido, praticamente não há paragens de jogo, são esforço diferentes. No futebol trabalha-se mais a resistência e a potência, acho eu.

A adaptação ao futebol exigiu mais de si?

CM – Na transição entre uma modalidade e outra senti a diferença e a necessidade de alguma adaptação ao esforço, é natural. Mas naquela altura actuava a um nível muito amador: à sexta-feira treinava no 1º Dezembro em Sintra, saía do treino à noite e ia a conduzir até Estremoz, no sábado jogava hóquei e depois metia-me de novo no carro e vinha para Lisboa e no domingo ia jogar futebol. Enfim, fazia-o por amor à camisola, claro, porque fazer uma coisa dessas a um nível profissional era impensável! Por isso tive de optar por uma modalidade.

Actualmente actua na Rússia, no SchFK Rossiyanka, de Moscovo. Não é uma aventura arriscada?

CM – O futebol é todo igual, em qualquer parte do Mundo, mas é verdade que me deparei com dois obstáculos naturais, o clima e sobretudo a língua, é o mais difícil para mim. Comunico em inglês, mas lá as pessoas não são muito abertas a falar inglês. Tenho de recorrer a uma tradutora e dentro de campo passa muito por memorizar e recorrer àquelas palavras mais básicas, fundamentais para que nos entendamos minimamente, tais como “tens nas costas”, “passa”, “remata”, mas é complicado…

Já lhe ensinaram algumas palavras em alfabeto cirílico?

CM – Não, ainda não aprendi a escrever nada em cirílico…

 

Está satisfeita com a experiência em Moscovo ou optaria diferente se voltasse atrás?

CM – Não me arrependo rigorosamente nada, aliás, fui cumprir os últimos 4 meses do campeonato da época passada e renovei contrato, portanto é sinal de que estou satisfeita com as condições que me são oferecidas, num quadro profissional. Espero que aqui em Portugal o caminho seja esse e que as condições possam evoluir no sentido da entrada no quadro do profissionalismo. Essa evolução já se nota e espero que se chega lá.

Regressar a Portugal está nas cogitações?

CM – Nunca se sabe! Para agora tenho um ano de contrato na Rússia e depois logo se verá.

Ter um Curso de Fisioterapia ajuda no quotidiano exigente do futebol?

CM – Ajuda sempre alguma coisa, mas às vezes nos tratamos pior a nós próprios do que aos outros, somos um pouco mais desleixados, é um pouco do género da máxima “em casa de ferreiro…”.  Mas para se jogar futebol não é preciso ter um Curso de Fisioterapia!