«Queremos devolver credibilidade ao Sp. Espinho e projectar novas vitórias e glórias»

Texto: Marcelo Neves

Foto: Hugo Monteiro


Numa altura em que o Sp. Espinho celebra o seu centenário, passando em revista vários momentos de glória, alegria e orgulho, o clube vive um presente cheio de incertezas, lutando ferozmente pela sobrevivência. Como é que um elenco tão jovem como o vosso decidiu arregaçar as mangas e enfrentar este duro desafio?

BGA – Este é sem dúvida o maior desafio da história do clube nestes 100 anos de vida. Todos nós avançámos porque mantemos ao clube uma fortíssima ligação umbilical. Crescemos nele, vimo-lo ser um grande clube e encontrámos uma realidade que não tem nada a ver com esse passado: um clube mal tratado, sem apoios, com um passivo gigantesco, na ordem dos 13 milhões de euros. Tendo sido reprovada a execução de um PER (Processo Especial de Revitalização), fomos forçados a apresentar um plano de insolvência, que permitiu sanar esse passivo mas à custa da venda do seu património. 

Um dos motivos porque avançámos foi a convicção de que melhores dias estão para vir e uma das forças extra foi pensarmos que também há cem anos o Sp. Espinho não tinha nada e foi construindo o seu património e a sua rica história. Mesmo estando nos últimos lugares do CNS a massa associativa não tem poupado o seu apoio, desloca-se a todo o lado, continua a ter uma claque bastante activa e isso prova que o clube não está nada morto, bem pelo contrário, está bem vivo e integra pessoas de enorme valor e é por essas pessoas, pela raça vareira que nos move e a convicção de que há muito trabalho pela frente para reerguer o clube aos lugares que merece, que decidimos assumir a liderança dos destinos do clube.

O vosso programa é ambicioso. Acreditam que será exequível?

 BGA – A nossa proposta é muito clara e passa, essencialmente e em primeiro lugar, por devolver ao clube a credibilidade que todos lhe reconheciam. Sempre foi um clube bom pagador, com uma imagem clara e limpa e nos últimos anos, infelizmente, além do património, perdemos também essa imagem que era uma mais-valia nossa. Tivemos atletas de grande qualidade que preferiam vir jogar para o Sp. Espinho, mesmo ganhando menos, porque sabiam que o clube honrava os seus compromissos. É isso que queremos voltar a ter. Podermos fazer contratos em que a palavra, por si só, é uma primeira garantia. Queremos recuperar credibilidade e transparência.

Este elenco nasceu de um movimento espontâneo, o chamado “Movimento Centenário”, formado por homens e mulheres independentes que amam o Sp. Espinho e que se juntaram não com interesses, mas por uma causa. Isto não foi nada programado! E foi até comovente, porque nos apercebemos de que essas pessoas mais antigas no fundo se reviam em nós; viajaram uns 40 anos no passado e viram a mesma força, vontade e espírito que elas demonstraram naqueles tempos. Por isso é importante recuperar aqueles sócios que estão afastados do clube, porque essa mística ainda existe, está é adormecida. 

Temos um conjunto de elementos que querem dar o seu melhor ao clube sem dele nada retirar em troca. É bom que as pessoas saibam que ninguém será remunerado aqui, nós viemos para ajudar e não para tirar. Temos plena noção da árdua tarefa que está diante de nós e consciência de que quem mais irá perder no meio disto tudo serão as nossas famílias, que desfrutarão menos do nosso tempo e da nossa presença, em prol do clube, mas é para isso que cá estamos.     

Muitos de vocês têm na família figuras históricas com estreita ligação ao clube. Foi um factor de peso na tomada de decisão de assumir as rédeas dos destinos do Sp. Espinho?

BGA – Nós crescemos a ver o clube ser bem gerido pelos nossos pais e antepassados. Mas eu gostaria de realçar que apesar da juventude desta Direcção, a maioria de nós, senão mesmo todas, tem mais de 25 anos de associação ao clube e numa altura em que tanto se falou do afastamento das famílias, isto vem demonstrar que isso é mentira, que volvidos 25 anos estamos cá nós, a dar sequência ao trabalho que fora realizado pelos nossos pais e nós aprendemos a estar com seriedade e dignidade no desporto. Todos nós temos família, temos nossas ocupações profissionais e compromissos fora do clube e aprendemos a honrá-los, tal como nos foi ensinado pelos nossos antepassados. Portanto, acaba por ser uma lista natural, que tinha de aparecer.

Apesar de jovem, trata-se de um elenco versátil e com conhecimentos e competências em diversas áreas fundamentais, certo?

 BGA – Temos uma equipa multidisciplinar, com competências em diversos campos: financeiro, de gestão, infraestruturas, uma equipa muito coesa que vai tratar o clube de uma maneira muito séria. Andámos a fazer um levantamento das realidades de cada secção do clube e estava tudo mal feito! Prometo e dou a garantia de que doravante vai tudo começar a ser feito com rigor e profissionalismo, contrariamente ao que vinha sucedendo de há uns anos a esta parte. Acabou-se a “gestão de mercearia”, de fazer as coisas em cima do joelho, de não fazer ideia das contas.

Não havia um planeamento?

 BGA – Nada, nada! Não havia um plano de actividades, não havia nem sequer um orçamento para cumprir com as nossas obrigações até final da época e isso é algo inadmissível, muito menos num clube centenário como este! Temos é de projectar um Sp. Espinho para mais 100 anos, ainda com mais vitórias e mais glórias!